Vamos falar um pouco sobre a Divina Comedia?

O poema  “A divina comédia” – talvez o maior do Ocidente – descreve uma viagem onde se sucedem diversos acontecimentos.  Sua força está na riqueza das alegorias, que tornam o relato atemporal. Na época em que Dante escreveu o poema, os textos  eram separados entre Comédia, obras dotadas de finais felizes, e Tragédias,  com finais opostos aos das Comédias. Os  lugares descritos por cada livro (o inferno, o purgatório e o  paraíso) são divididos em nove círculos cada, formando no total 27 níveis. Os três livros rimam no último verso, pois terminam com a mesma palavra:  stelle, que significa ‘estrelas’.

A Divina Comédia propõe que a Terra está no meio de uma  sucessão de círculos concêntricos que formam a Esfera armilar.  E o meridiano, onde hoje é Jerusalém , seria o lugar atingido por Lúcifer ao cair das esferas mais superiores e que fez da Terra Santa, o Portal do Inferno. Portanto o Inferno, responderia pela depressão do Mar Morto, onde todas as águas convergem. O Paraíso e o Purgatório seriam os segmentos dos  círculos concêntricos que juntos respondem pela mecânica  celeste e os cenários comentados por Dante, num poema envolvendo todos os personagens bíblicos do Antigo ao Novo Testamento. E que são costumeiramente encontrados nas entranhas  do Inferno, sendo que os personagens principais da Divina Comédia são: o próprio autor, Dante Alighieri, que realiza uma jornada espiritual pelos três reinos do além-túmulo, e seu guia e mentor nessa empreitada, Virgílio – o próprio autor da Eneida.

No meio de sua vida, Dante se encontra totalmente perdido em uma escura floresta, e sente que sua vida havia saído do caminho correto. Não sabe para onde ir, mas decide que precisa sair da floresta o quanto antes para sobreviver. Vê então uma montanha e logo imagina que ela poderia ser sua salvação, mas ao tentar subir, Dante é impedido por três feras: uma loba, um leopardo e um leão.

O que Dante não imaginava é que Beatriz – sua paixão de infância – estava do céu visualizando seu sofrimento e decidira ajudá-lo, indo até o Limbo para pedir a Virgílio que o guiasse. Virgílio era um poeta da antiguidade, muito admirado por Dante, e que decide auxiliá-lo lhe propondo uma viagem. Primeiramente adentrariam aos portais do inferno, atravessariam todo o mundo subterrâneo até encontrar Lúcifer, rumariam aos pés do purgatório e de lá partiriam rumo ao paraíso.

Dante aceita a proposta do poeta e o segue. Durante toda a longa viagem, Virgílio protege e guia o rapaz. Chegam à primeira parada e Virgílio mostra a Dante os nove círculos do inferno, o sofrimento de cada condenado, as cidades, os demônios, os monstros e explicando onde os diferentes tipos de pecados são expurgados. No centro da terra encontram Lúcifer, do qual conseguem fugir por um caminho subterrâneo.

Ao saírem do inferno, Virgílio e Dante se deparam diante do purgatório. Uma altíssima montanha, a qual ultrapassava a esfera do ar e chegava a penetrar a esfera do fogo, alcançando o próprio céu. Dante fica grandemente impressionado, pois jamais em sua vida imaginara ver algo parecido.

Aos pés da montanha encontram o ante-purgatório, local onde as pessoas que se arrependeram de seus pecados tardiamente aguardariam a oportunidade de adentrar ao purgatório de fato.

Os dois viajantes passam por dois níveis de ante-purgatório e entram na montanha, subindo cada vez mais alto. Passam pelos sete terraços, onde cada um expurga um pecado capital.

Ao chegarem ao topo, Virgílio e Dante se despedem. Através do fogo que separa o paraíso do purgatório, um anjo levaria Dante aos céus. Às margens do rio Letes, Dante se banha para purificar-se e encontra Beatriz, para que possam dar continuidade à viagem.

Dante encontra o paraíso dividido em duas partes: uma espiritual (onde não existe matéria) e uma material. Passando primeiramente pela material, ele circula pelo céu cosmológico formado por nove círculos e sete planetas. Beatriz o guia para próximo ao Sol e ambos passam a se elevar, como se estivessem se transformando. O poeta visualiza personagens como o Imperador Justiniano e São Tomás de Aquino.

Ao chegar ao céu de estrelas fixas, os santos o interrogam sobre suas posições religiosas e filosóficas. Após todo o interrogatório, é permitido a Dante que prossiga sua viagem para o céu espiritual. Lá ele ganha uma capacidade visual nova, a qual lhe permite compreender o mundo espiritual de maneira visual. Separa-se de Beatriz e ganha a Rosa Mística, tendo a chance de sentir o amor divino vindo diretamente de Deus, o qual finaliza a obra como o amor que move o Sol e as outras estrelas.

Para Dante a poesia e a filosofia eram a mesma coisa, porque a finalidade da poesia real como a finalidade da filosofia está na descoberta da verdade, afirmação da verdade e disseminação da verdade. Não há nada novo na disseminação de verdades, e também não contem nada velho, simplesmente porque é perene, não importa os obstáculos postos, diante dela, não importa a aparente decadência que ela está nos dias atuais, mesmo nesses tempos em que a mídia e a tecnologia escravizam quase por completo o espírito do homem.

Se fizermos uma análise da obra-prima de Dante Alighieri e, “A Divina Comédia”, não pode ser considerada como uma epopéia, pois não é a história fictícia de um herói que, pela suas façanhas, fundou ou glorificou uma nacionalidade.

O escritor italiano não trata das origens nem de exaltar seu povo,. por isso podemos classificar esta Obra “A Divina Comédia” como um poema didático-alegórico. Didático porque tem uma finalidade educativa, e em seus ensinamentos e alegórico porque percebe-se claramente símbolos que tem significação espiritual. E assim, remete ao espírito os ensinamentos ministrados por uma série de símbolos, ou seja, signos materiais que tem significação espiritual.

A grandeza de Dante Aliguieri está em ter conseguido elevar à categoria da universalidade, os problemas seus e de sua terra natal, através da Arte, Filosofia e poesia.

Por Wendell E. Santos

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